Infância e adolescência

Adaptação escolar: o choro, o tempo e o lugar dos pais

A adaptação escolar é uma separação, para a criança e para os pais. O choro não é sinal de erro, e o tempo de cada criança precisa ser respeitado.

A adaptação escolar é o período em que a criança aprende a ficar em um lugar novo, com pessoas novas, longe dos pais. Choro, apego, recusa e até mudanças no sono são reações esperadas, porque toda adaptação é, no fundo, uma separação. Ela costuma ser mais tranquila quando os pais se despedem com clareza, confiam na escola e respeitam o tempo da criança, que não é o mesmo para todas.

Por que a criança chora na adaptação?

Para uma criança pequena, ficar sem os pais em um ambiente desconhecido é uma experiência intensa. Ela ainda está construindo a certeza de que quem vai embora também volta.

Winnicott falava da importância de a criança ter dentro de si a confiança construída nos cuidados do dia a dia. É essa confiança que permite que ela fique bem por um tempo sem a presença dos pais. A adaptação é justamente o momento de colocar essa confiança à prova, aos poucos.

O choro, então, não significa que algo está errado. É a forma de a criança expressar o que sente diante de uma mudança grande.

Como os pais podem ajudar?

  • Prepare a criança. Conte sobre a escola, visite antes, se possível, e fale sobre a rotina que ela vai viver.
  • Despeça-se sempre. Sair escondido pode parecer mais fácil, mas costuma aumentar a insegurança. Uma despedida curta e carinhosa ajuda mais.
  • Diga quando vai voltar, de um jeito que ela entenda: "depois do lanche, eu venho te buscar". E cumpra.
  • Evite despedidas longas demais. Prolongar o momento costuma deixar a separação mais difícil.
  • Confie na escola e converse com a equipe sobre como a criança está.
  • Respeite o objeto de apego. Se a criança já tem um bichinho ou uma fralda de pano que ela mesma escolheu, e a escola permitir, ele pode ir junto. Winnicott chamou esses objetos de objetos transicionais: eles ajudam a criança a lidar com a ausência e a confiar no mundo à sua volta.

E os sentimentos dos pais?

A adaptação também é uma separação para os pais. É comum sentir culpa, insegurança, aperto no peito ou vontade de voltar correndo. A criança percebe esses sentimentos, e por isso vale cuidar deles também.

Conversar com outros pais, com a escola ou com alguém de confiança ajuda. Também ajuda lembrar que a escola pode ser um lugar de descobertas, amizades e crescimento.

Quanto tempo dura a adaptação?

Não existe um prazo certo. Algumas crianças se adaptam rápido, outras levam mais tempo, e algumas parecem bem no começo e estranham depois. Também é comum que a dificuldade volte depois de férias, feriados longos ou mudanças em casa.

Comparar com irmãos ou colegas não ajuda. Cada criança tem o seu ritmo.

Quando a adaptação pede um olhar mais atento?

Vale conversar com a escola e, se for o caso, com uma psicóloga infantil quando:

  • O sofrimento continua muito intenso por muito tempo, sem sinais de melhora.
  • A criança passa a recusar a escola depois de já estar adaptada.
  • Surgem outros sinais junto: medos intensos, dificuldade para dormir, regressões, isolamento.
  • A dificuldade de se separar dos pais aparece em várias situações, e não só na escola.

Esses sinais não são diagnóstico. Indicam que a criança pode estar precisando de ajuda para lidar com o que sente. Escrevi sobre outros sinais em Quando levar meu filho à psicóloga?.

Para conhecer o meu trabalho com crianças em Ribeirão Preto, veja a página de psicanálise infantil.

Referências

  • Winnicott, D. W. (1953). Objetos transicionais e fenômenos transicionais. In: O brincar e a realidade (1971).
  • Winnicott, D. W. (1958). A capacidade para estar só. In: O ambiente e os processos de maturação (1965).

Se algo deste texto falou com você

Podemos conversar sobre o que você está vivendo. A primeira conversa é o momento de tirar dúvidas e entender se este é o caminho.

Falar pelo WhatsApp
WhatsApp