Antes de tudo, parabéns
Ao trazer seu filho para a terapia, vocês escolhem enxergar a vida emocional da criança como parte do seu crescimento, e não como algo a esconder ou a esperar passar.
Essa decisão já é, em si, um gesto de cuidado. E ela merece ser reconhecida.
Por que cuidar cedo faz diferença
Segundo a Organização Mundial da Saúde, metade das condições de saúde mental começa até os 14 anos. Olhar para a saúde emocional na infância é cuidar no momento em que a mente ainda está se formando.
Tudo começa com Freud
Sigmund Freud mostrou que boa parte do que sentimos e fazemos nasce em um lugar que não conhecemos por inteiro: o inconsciente. Um sintoma, um medo ou um comportamento que se repete não são aleatórios. Carregam um sentido que pode ser escutado.
Foi ele também quem, em 1909, publicou o primeiro estudo psicanalítico dedicado a uma criança, abrindo caminho para a psicanálise infantil.
Quem levou a escuta até as crianças
A partir de Freud, alguns pioneiros mostraram que a criança tem seu próprio modo de sentir e uma linguagem própria para se expressar:
- Anna Freud (1895–1982), pioneira da psicanálise infantil, valorizou o papel da família no processo.
- Melanie Klein (1882–1960) mostrou que o brincar é, para a criança, o que a fala é para o adulto.
- Donald Winnicott (1896–1971), pediatra e psicanalista, revelou o peso do ambiente e do cuidado.
O que a psicanálise infantil traz
Minha formação em Psicanálise Infantil, pelo Instituto Sedes Sapientiae, tem justamente este centro:
- Escutar a criança na linguagem dela: o brincar, o desenho, as histórias.
- Compreender o que está por trás do comportamento, e não apenas corrigi-lo.
- Olhar para a criança e para o seu ambiente. A família faz parte do cuidado.
"Eles só brincam?"
Visto de fora, pode parecer apenas brincadeira. Mas é no brincar que a criança organiza o que sente: cada escolha, cada repetição e cada pausa diz algo.
"É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral." — D. W. Winnicott, O brincar e a realidade
Escrevi mais sobre isso em Por que a análise com crianças passa pelo brincar.
Mais do que uma conversa
Com crianças maiores e adolescentes, a palavra ganha mais espaço. Ainda assim, não se trata de um bate-papo: a escuta psicanalítica está atenta ao que se repete, ao que se evita e ao que aparece nas entrelinhas.
É essa escuta que transforma o que a criança vive em algo que ela pode, aos poucos, compreender.
O tempo do processo é o tempo da criança
Cada criança é única, e cada processo também. As mudanças costumam acontecer primeiro por dentro, antes de aparecerem no comportamento. Por isso, há fases em que parece que nada muda, e outras em que tudo se movimenta.
Freud chamou de elaboração esse trabalho de dar novo sentido ao que se repete, um trabalho que pede tempo e não pode ser apressado.
O que a ciência mostra
Uma ampla meta-análise sobre ludoterapia, que reuniu 93 estudos controlados de diferentes abordagens e 3.248 crianças, encontrou um tamanho de efeito de 0,80, considerado grande. Em média, as crianças atendidas tiveram resultados melhores do que cerca de 79% das que não foram atendidas.
Na psicoterapia psicanalítica com crianças, alguns estudos observam que os ganhos se mantêm ou continuam depois do fim do acompanhamento. A terapia não oferece respostas prontas: ela ajuda a criança a desenvolver recursos próprios.
Pais e psicóloga, lado a lado
Winnicott chamava de ambiente facilitador o conjunto de cuidados que permite à criança crescer. Na terapia infantil, esse ambiente é construído em parceria: o espaço da sessão e o espaço de casa caminham juntos.
Vocês conhecem seu filho como ninguém. Eu trago a escuta clínica. Juntos, sustentamos o processo.
Como essa parceria acontece
- Encontros de orientação: momentos regulares para conversarmos sobre os caminhos do processo e o que observo.
- A visão de vocês: o que acontece em casa e na escola é parte essencial do trabalho. Tragam suas observações e dúvidas.
- O espaço da criança: o que ela traz em sessão é preservado. É essa confiança que permite o processo, e eu compartilho com vocês o que ajuda.
Na mesma meta-análise, os estudos em que os próprios pais, treinados e acompanhados por profissionais, conduziram momentos de brincar com os filhos mostraram efeitos ainda maiores. A presença dos pais conta muito: vocês são parte do cuidado.
Pequenos sinais de movimento
Cada criança se transforma do seu jeito e no seu ritmo. Alguns sinais que costumam aparecer pelo caminho:
- Começa a nomear o que sente, em vez de só agir.
- Busca mais a conversa e o acolhimento.
- Lida de outro jeito com o "não" e com as frustrações.
- Sente a sessão como sua, um lugar seguro.
No dia a dia, como vocês ajudam
- Falem com naturalidade. Apresentem a terapia como um espaço da criança, nunca como castigo.
- Mantenham a frequência. A regularidade sustenta o vínculo e o próprio processo.
- Acolham antes de corrigir. Reconhecer o sentimento abre espaço para que ele seja elaborado.
- Confiem no processo. Evitem comparações e tragam dúvidas e inquietações para os nossos encontros.
Cuidar da vida emocional de um filho é um gesto de amor. Obrigada por confiar esse caminho a mim.
Para se aprofundar
- Freud, S. (1909). Análise da fobia de um garoto de cinco anos.
- Freud, S. (1914). Recordar, repetir e elaborar.
- Klein, M. (1932). A psicanálise de crianças.
- Winnicott, D. W. (1965). O ambiente e os processos de maturação.
- Winnicott, D. W. (1971). O brincar e a realidade.
- Freud, A. (1965). Normalidade e patologia na infância.
- Bratton, S. C., Ray, D., Rhine, T. & Jones, L. (2005). The efficacy of play therapy with children: a meta-analytic review of treatment outcomes. Professional Psychology: Research and Practice, 36(4), 376–390.
- Midgley, N. et al. (2021). The evidence-base for psychodynamic psychotherapy with children and adolescents. Frontiers in Psychology, 12, 662671.
- Organização Mundial da Saúde. Mental health of adolescents (nota descritiva).
Material educativo. Não substitui a avaliação individual de cada criança.