Na análise com crianças, o brincar ocupa o lugar que a fala ocupa na análise de adultos. A criança ainda não tem palavras para tudo o que sente, mas ela brinca, desenha, inventa histórias e repete cenas. É por esse caminho que ela mostra seus medos, seus conflitos e suas perguntas, e é por ele que a psicanalista escuta e intervém.
Por isso, quando os pais perguntam "mas ela só brinca?", a resposta é: sim, e é justamente aí que o trabalho acontece.
O que a psicanálise descobriu sobre o brincar?
Sigmund Freud já tinha observado, ao ver o neto jogar e puxar de volta um carretel, que a criança usa a brincadeira para lidar com o que é difícil. No caso do menino, a ausência da mãe. Brincando, ela transforma em ativo o que viveu de forma passiva.
Depois de Freud, outros psicanalistas levaram essa escuta até as crianças. Melanie Klein mostrou que o jogo infantil tem, na análise, o mesmo valor que as palavras têm para o adulto: cada escolha, cada repetição e cada pausa diz algo. Anna Freud destacou o papel do ego e a necessidade de considerar a família e o ambiente da criança. E Donald Winnicott, pediatra e psicanalista, fez do brincar o centro da sua obra. Para ele, é brincando que a criança, e também o adulto, pode ser criativa e se sentir verdadeiramente viva.
O que acontece numa sessão com a criança?
O consultório infantil tem brinquedos simples: bonecos, animais, carrinhos, massinha, papel, lápis, jogos. Não são brinquedos para "ensinar" nada. Eles estão ali para que a criança possa expressar o que vive.
Durante a sessão, a criança escolhe o que fazer. Eu acompanho, observo e participo quando ela me convida. Presto atenção ao que se repete, ao que é evitado, às histórias que surgem e às emoções que aparecem no jogo. Às vezes, coloco em palavras o que percebo, de um jeito que faça sentido para a idade dela.
Uma história que volta toda semana, uma brincadeira interrompida sempre no mesmo ponto, um personagem que muda de papel: nada disso é aleatório. É a forma de a criança elaborar o que sente.
Brincar na terapia é diferente de brincar em casa?
Sim. Em casa, o brincar é livre e fundamental para o desenvolvimento. Na terapia, ele acontece em um espaço preparado, com regularidade, sigilo e uma escuta treinada para compreender o que está por trás da brincadeira.
A diferença não está nos brinquedos, e sim na escuta. A criança percebe que ali existe um lugar só dela, onde tudo pode ser mostrado sem julgamento. É essa confiança que permite que o trabalho aconteça.
E com crianças maiores e adolescentes?
Com o tempo, a palavra ganha mais espaço. Crianças maiores costumam preferir jogos com regras, desenhos ou conversas. Adolescentes, em geral, falam. Ainda assim, não se trata de um bate-papo: a escuta psicanalítica continua atenta ao que se repete e ao que aparece nas entrelinhas. Escrevi sobre isso em Terapia na adolescência.
Ludoterapia e psicanálise infantil são a mesma coisa?
"Ludoterapia" é um nome amplo para terapias que usam o brincar, e existem diferentes abordagens com esse nome. Na psicanálise infantil, o brincar é escutado como linguagem do inconsciente, à luz do que Freud, Klein e Winnicott ensinaram. O objetivo é compreender o que o comportamento expressa.
Esse é o foco da minha especialização em Psicanálise Infantil, pelo Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo.
Como os pais podem ajudar?
- Apresentem a terapia como um espaço da criança, nunca como castigo.
- Não perguntem com insistência "o que você fez lá?". Se ela quiser contar, ótimo. Se não, respeitem.
- Mantenham a frequência, mesmo quando parecer que "não está acontecendo nada".
- Tragam suas dúvidas para os encontros de orientação com a psicóloga.
Para quem está começando, reuni tudo isso no Guia para pais. E, sobre o meu trabalho com crianças em Ribeirão Preto, veja a página de psicanálise infantil.
Referências
- Freud, S. (1920). Além do princípio do prazer.
- Klein, M. (1932). A psicanálise de crianças.
- Freud, A. (1965). Normalidade e patologia na infância.
- Winnicott, D. W. (1971). O brincar e a realidade.