Quem vive fora

Morar fora e perder o chão: luto migratório e choque cultural

Mudar de país é ganhar muita coisa. E também é perder outras, mesmo quando a mudança foi desejada.

Luto migratório é o nome dado ao processo emocional de quem deixa o seu país e precisa lidar com tudo o que ficou para trás: a família, os amigos, a língua, a comida, o clima, o jeito de ser tratado, o lugar social que se tinha. Choque cultural é o estranhamento de viver em uma cultura com regras, ritmos e afetos diferentes. Os dois são reações esperadas a uma mudança grande, mesmo quando ela foi escolhida e é vivida como uma conquista.

Por que se fala em "luto" se ninguém morreu?

Porque, em psicanálise, o luto é o trabalho psíquico de lidar com uma perda importante. Freud incluiu entre essas perdas não só pessoas, mas também abstrações como a pátria e a liberdade. Ele descreveu o luto como um processo lento, em que aos poucos nos despedimos do que perdemos para poder investir em algo novo.

Quem migra vive várias perdas ao mesmo tempo, e muitas delas não são reconhecidas. Não há velório para a rua da infância, para o almoço de domingo ou para a sensação de ser entendido sem precisar explicar. Às vezes, também não há permissão para sentir: "você está vivendo o sonho, como pode estar triste?".

Os psicanalistas León e Rebeca Grinberg, que estudaram a fundo a experiência de migrar, mostraram que esse luto tem características próprias. Uma delas é que ele vai e volta. O que foi deixado continua existindo, a uma passagem de avião de distância. A cada visita, a cada notícia, a cada data especial, a saudade pode voltar com força.

Como o choque cultural aparece no dia a dia?

O choque cultural nem sempre é dramático. Muitas vezes ele aparece em pequenas coisas que, somadas, cansam:

  • A forma de se cumprimentar, de marcar um encontro ou de dizer "não".
  • O silêncio no transporte público, ou o barulho, dependendo de onde se vem.
  • A dificuldade de fazer amizades profundas, mesmo com uma boa rede de conhecidos.
  • O esforço constante de se expressar em outra língua, que deixa a cabeça cansada no fim do dia.
  • A sensação de ser visto como "o estrangeiro", com os estereótipos que vêm junto.

É comum que os primeiros meses tenham um encantamento, seguido de uma fase mais difícil, quando a novidade passa e as diferenças pesam. Mas não há um calendário: cada pessoa vive isso de um jeito.

Quais sinais mostram que a mudança está pesando demais?

Algumas experiências merecem atenção quando se prolongam ou atrapalham a vida:

  • Tristeza ou irritação que não passam, ou crises de choro frequentes.
  • Isolamento, falta de vontade de sair ou de conhecer pessoas.
  • Ansiedade, insônia ou cansaço sem explicação.
  • Idealização intensa do Brasil ou, ao contrário, rejeição a tudo o que vem de lá.
  • Conflitos no casal ou na família que surgiram ou cresceram depois da mudança.
  • A sensação de não pertencer a lugar nenhum.

Nenhum desses sinais é um diagnóstico. São formas de o psiquismo dizer que há muito a ser elaborado.

E quando a família também se mudou?

Mudanças de país mexem com toda a família, e cada pessoa vive a sua parte. Um dos parceiros pode ter se mudado pelo trabalho do outro e sentir que perdeu a própria carreira. Os filhos aprendem a nova língua mais rápido e, às vezes, passam a traduzir o mundo para os pais. Avós ficam longe e a rede de apoio diminui.

Falar sobre isso, sem culpa, ajuda a família a encontrar um novo equilíbrio.

Como a terapia pode ajudar?

A análise oferece um lugar para dar nome ao que se perdeu e ao que se ganhou, para lidar com a culpa de ter ido e com a dúvida sobre ficar ou voltar. Ela também ajuda a construir uma identidade que não precise escolher entre "lá" e "cá".

Para quem vive fora, fazer esse trabalho em português costuma fazer diferença. Há lembranças, expressões e afetos que só aparecem na língua materna. Escrevi sobre isso em Terapia em português para quem vive fora do Brasil.

Se você está passando por um momento de crise, procure o número de emergência do país onde está (por exemplo, 911 nos Estados Unidos e no Canadá, 112 na União Europeia, 999 no Reino Unido, 119 no Japão). O CVV oferece apoio emocional em português por chat, em cvv.org.br, nos horários informados no site.

Atendo adultos online, em português. Veja como funciona na página de atendimento online.

Referências

  • Freud, S. (1917). Luto e melancolia.
  • Grinberg, L. & Grinberg, R. (1984). Psicanálise da migração e do exílio.

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