A psicanálise é um tratamento pela fala. A pessoa fala livremente sobre o que vive, sente, lembra ou sonha, e a psicanalista escuta com atenção ao que se repete, ao que se evita e ao que aparece nas entrelinhas. Aos poucos, aquilo que parecia sem explicação ganha sentido, e esse sentido abre espaço para outras formas de viver.
A psicanálise foi criada por Sigmund Freud, no fim do século XIX, e segue viva até hoje porque continua respondendo a uma necessidade muito humana: ser escutado de verdade.
De onde vem a ideia central da psicanálise?
Freud percebeu que boa parte do que sentimos e fazemos nasce em um lugar que não conhecemos por inteiro. Ele fez desse lugar o centro da sua teoria: o inconsciente.
Uma angústia que aparece sem motivo aparente, um padrão que se repete nos relacionamentos, um medo que não passa com bons conselhos: nada disso é por acaso. Esses sinais carregam uma história. Na análise, não tentamos apenas fazer o sintoma sumir. Procuramos entender o que ele está dizendo.
Como funciona uma sessão de psicanálise?
Na análise não existe assunto certo ou errado. O convite é falar o que vier à mente, inclusive o que parecer pequeno, sem importância ou sem lógica. Freud chamou isso de associação livre.
As sessões costumam durar cerca de 50 minutos e, em geral, acontecem uma vez por semana, no mesmo dia e horário. Essa regularidade não é detalhe: é ela que cria a segurança para que o que é difícil possa, enfim, ser dito.
O meu trabalho não é dar conselhos nem respostas prontas. É escutar, fazer perguntas, apontar o que se repete e ajudar você a construir o seu próprio entendimento sobre o que vive.
Na psicanálise a pessoa precisa deitar no divã?
Não necessariamente. O divã é um recurso clássico, mas muitas análises acontecem frente a frente, sentados. A escolha depende do momento de cada processo e é conversada entre paciente e analista.
O que define a psicanálise não é o móvel. É a forma de escutar.
Para quem a psicanálise é indicada?
Para qualquer pessoa que sinta que algo em sua vida pede atenção. Não é preciso estar em crise nem ter um diagnóstico. Algumas pessoas chegam por causa de uma angústia, de um luto ou de uma fase difícil. Outras chegam porque percebem que repetem as mesmas escolhas e querem entender por quê.
A psicanálise também cuida de crianças. Com elas, a escuta acontece principalmente pelo brincar, pelo desenho e pelas histórias que inventam. Escrevi sobre isso em Por que a análise com crianças passa pelo brincar.
A psicanálise funciona?
Há boa evidência de que a psicoterapia de base psicanalítica é eficaz. Uma revisão publicada pela American Psychological Association reuniu estudos sobre a psicoterapia de base psicanalítica e encontrou efeitos consistentes na redução dos sintomas. Um dado chamou atenção: os ganhos tendiam a continuar crescendo depois do fim do tratamento.
A análise não entrega uma fórmula. Ela ajuda a pessoa a desenvolver recursos próprios.
Ainda assim, cada processo é único. Não existe um número de sessões nem um prazo que valha para todos.
Quanto tempo dura uma análise?
Não há duração definida de antemão. As mudanças costumam acontecer primeiro por dentro, antes de aparecerem na vida. Há fases de muita descoberta e fases em que parece que nada se move, e as duas fazem parte do caminho.
Freud chamou de elaboração esse trabalho de dar novo sentido ao que se repete. É um trabalho que pede tempo e não pode ser apressado.
O que é a transferência?
Com o tempo, sentimentos ligados a pessoas importantes da sua história podem aparecer na relação com a analista: confiança, raiva, medo de decepcionar, vontade de agradar. Freud chamou isso de transferência.
Longe de ser um problema, ela é uma das ferramentas mais preciosas da análise. É ali, na relação que se constrói na sessão, que o que se repete pode ser visto, falado e transformado. Por isso, falar sobre o que você sente em relação à terapia também faz parte dela.
Qual é a linha de trabalho que eu sigo?
Conduzo cada análise a partir de duas referências que se completam. De Freud, a escuta do inconsciente: compreender o que se repete e o que está por trás do sintoma. De Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, o olhar para o ambiente e para os primeiros vínculos, e a busca por um modo de viver mais verdadeiro, para além das máscaras que criamos para nos adaptar.
Se você está pensando em começar, preparei um guia sobre o que esperar das primeiras sessões: O primeiro passo para dentro de si.
Referências
- Freud, S. (1912). A dinâmica da transferência.
- Freud, S. (1913). Sobre o início do tratamento.
- Freud, S. (1914). Recordar, repetir e elaborar.
- Winnicott, D. W. (1965). O ambiente e os processos de maturação.
- Shedler, J. (2010). The efficacy of psychodynamic psychotherapy. American Psychologist, 65(2), 98–109.